sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Um dia…será esta a única coisa que lhe importará



Estas semanas, tenho observado a forma como a humanidade enfrenta o momento de partida deste mundo, no que poderemos considerar as “salas de espera para o embarque” que representa a morte. Estas salas de espera, são mais notórias em casas que designamos de lares para a terceira idade, ou casas de repouso, mas também é possível ver estas “salas de espera e embarque” nos jardins públicos, nos lares de familiares, e em outros variadíssimos locais, onde idosos, esperam como que resignados, pela sua última viagem.

Questiono qual o motivo desta resignação e em breves segundos, respondo-me a mim mesmo, pois como em tantas outras coisas, esta humanidade, preferiu, prefere e continuará a preferir viver dentro dos padrões, sem arriscar a pensar, a questionar, a ir mais além. Se os outros se comportam assim, é porque não há outra forma de nos comportarmos, senão já outros o teriam feito, assim que mantemo-nos dentro do rebanho e não questionamos mais do que é o habitual nele. 

O mesmo fenómeno ocorre para a resignação sobre a última viagem. Engraçado é o fato de humanidade querer a todo o custo que as aprendizagens sobre a morte se mantenham ocultas, sendo o maior dos tabus da humanidade, quando todos, absolutamente todos um dia a terão que enfrentar E nesse dia, todos, absolutamente todos tomarão o mesmo modo de enfrenta-la – resignando-se, tal qual um cordeiro que vai para o altar do sacrifício e nada questiona, pois esse é o seu destino, signifique ele, o que significar…

Esta espécie de prostração espiritual é mais que simples resignação, ela é interiorizada no ser humano ao longo da sua existência e através das inúmeras vezes que no decurso da sua vida, ele presencia essa atitude de prostração por parte dos que partem ou esperam pela partida. Assim cada ser humano é programado para se resignar perante o momento derradeiro.
Não importa se você é crente ou não crente, não importa mesmo qual seu credo. Em todos os seres, crentes e não crentes, apenas se torna importante, para cada uma de nós, aquilo que nos levará a melhor viver, este dia a dia. O momento derradeiro, onde se espera a partida, agora não importa, depois enfrentaremos, sim enfrentaremos, como todos os outros – resignados, cheios de medo e tão ignorantes como os que chegam aqui.

E neste dia a dia, neste frenesim a que a vida nos relega, acabamos por viver a vida unicamente, como ela não deveria ser vivida. Preocupados em exclusivo com as coisas ridículas e mesquinhas, olvidando a necessidade de aprendermos que a importância deve ser dada a tudo o que deve merecer a pena, e importante é tão-somente, tudo o que vive dentro de nós. 

Mas não, lá vamos vivendo nós, presos a esses engodos que a vida nos coloca, onde se olha para tudo o que está à nossa volta e pouco ou nada para aquilo que parte de dentro de nós. Pouco importa o que sentimos, o que desejamos realmente, desde que o que aparentamos nos leve a ser o que nunca somos nem seremos, mas que é o mais aceite pelo grupo.

Olho para estes idosos, os próximos passageiros desta viagem que chamamos morte e pergunto-me:
- Como é possível desperdiçar toda uma vida, sem sequer questionar, sem perceber que a vida tem que fazer sentido e que nesse sentido que é a razão da existência, a morte tem que ter correspondência com esse mesmo sentido?

Olho para eles e depois de perceber o motivo desse desperdiçar de vida, pergunto-me:
- Será a ignorância a que nos relegamos, o único responsável por tais resultados? Haverá que pensar que a acídia de cada um de nós, também cabe nessa resposta?
Certamente que ambos.

Mas quem é responsável por nos manter em tal cativeiro de ignorância e acídia?
A quem importa manter em tal estado esta humanidade?


“AC”

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