sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A Ordem de Cristo.


“A Ordem de Cristo tem como regra: Liberdade, Igualdade, Fraternidade.

Subsolo.
A Ordem de Cristo não tem graus, templo, rito, insígnia ou passe. Não precisa reunir, e os seus cavaleiros, para assim lhes chamar, conhecem-se sem saber uns dos outros, falam-se sem o que propriamente se chama linguagem. Quando se é escudeiro dela não se está ainda nela; quando se é mestre dela já se lhe não pertence. Nestas palavras obscuras se conta quanto basta para quem, que o queira ou saiba, entenda o que é a Ordem de Cristo — a mais sublime de todas do mundo.
Não se entra para a Ordem de Cristo por nenhuma iniciação, ou, pelo menos, por nenhuma iniciação que possa ser descrita em palavras. Nãos se entra para ela por querer ou por ser chamado; nisto ela se conforma com a fórmula dos mestres: «Quando o discípulo está pronto, o Mestre está pronto também.» E é na palavra «pronto» que está o sentido vário, conforme as ordens e as regras.
Fiel à sua obediência — se assim se pode chamar onde não há obedecer — à Fraternidade de quem é filha e mãe, há nela a perfeita regra de Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Os seus cavaleiros—chamemos-lhes sempre assim — não dependem de ninguém, não obedecem a ninguém, não precisam de ninguém, nem da Fraternidade de que dependem, a quem obedecem e de que precisam. Os seus cavaleiros são entre si perfeitamente iguais naquilo que os torna cavaleiros; acabou entre eles toda a diferença que há em todas as coisas do mundo. Os seus cavaleiros são ligados uns aos outros pelo simples laço de serem tais, e assim são irmãos, não sócios nem associados. São irmãos, digamos assim, porque nasceram tais. Na ordem de Cristo não há juramento nem obrigação.
Ela, sendo assim tão semelhante à Fraternidade em que respira, porque, segundo a Regra, «o que está em baixo é como o que está em cima», não é contudo aquela Fraternidade: é ainda uma ordem, embora uma Ordem Fraterna, ao passo que a Fraternidade não é uma ordem.
s.d.
Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio . Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985. 
 - 47.
“Subsolo”

O ensaio sobre a Iniciação. – de Fernando Pessoa


«...uma vez Neófito, cabe-lhe escolher o caminho místico, o mágico ou o gnóstico».

Havia três razões pelas quais nas religiões pagãs certas verdades, ou coisas supostas serem verdades, eram transmitidas só em segredo e reclusão, por iniciação. A primeira era uma razão social: pensava-se que essas tais verdades eram impróprias para transmissão a qualquer homem, a nau ser que ele estivesse em certa medida preparado para as receber, e que elas teriam resultados sociais desastrosos se fossem tornadas públicas, pois isso significaria que seriam mal compreendidas. «Etiamsi revelare destruere est...» A segunda era uma razão filosófica: supunha-se que, em si próprias, essas verdades não eram de um género que o homem comum pudesse compreender e que lhe poderia advir confusão mental e desequilíbrio na conduta se lhe fossem inutilmente comunicadas. A terceira era, por assim dizer, uma razão espiritual: pensava-se que, por serem verdades da vida interior, essas verdades não deviam ser comunicadas, mas sugeridas, e que a sugestão devia ser impressiva, rodeada de secretismo, para que pudesse ser sentida como de valor; de ritual, para que pudesse impressionar e surpreender; de símbolos, para que o candidato fosse forçado a abrir o seu próprio caminho, lutando por interpretar os símbolos, em vez de se julgar cheio de conhecimento se a comunicação tivesse sido feita por ensinamento dogmático ou filosófico.
Não digo que estas três razões se apresentassem claras ou em separado ou em conjunto, embora assim divididas, nos espíritos dos antigos, sacerdotes ou leigos das suas religiões. Mas digo que, quando não por inteligência directa, ao menos por intuição, eles basearam as suas religiões neste esquema divisional.
As religiões dos Antigos, e sobretudo as religiões pagãs da Grécia e Roma, que são as que mais nos interessam, uma vez que os nossos espíritos são seus filhos, estavam divididas em três formas. Havia uma forma social, o culto, que era o do homem como cidadão. Havia uma forma individual, a poesia, que era do homem como não-cidadão; cumprido o culto devidamente, ele podia interpretar para si os deuses como entendesse e elaborar as suas lendas como lhe parecesse mais adequado. E havia uma forma secreta, a iniciação, que participava em segredo das características de ambas: era individual porque, mesmo quando a iniciação era colectiva como nos grandes Mistérios pagãos, era sempre o indivíduo o iniciado e não o grupo; era social, porque a iniciação era comunicada em ritual e o ritual é social.
O que com os Cristãos raramente está associado ou fundido com a poesia como acontecia com os pagãos. (Não compreenderemos a Idade Média até que compreendamos que a teologia era a sua poesia, que a ausência de poesia então mais não era que a presença da poesia sob outra forma).
Todas as religiões, porém, estão no mesmo estado que as grandes religiões pagãs. As três formas de religião serão encontradas de uma forma ou de outra em todas. Nas religiões cristas, por exemplo, temos o culto público, quer seja altamente cerimonial como na Igreja Romana, quer pobre até à nudez como nas seitas protestantes extremistas; temos a religião individual significando a reflexão pessoal sobre os dogmas e fórmulas de fé, e isto é teologia onde (com os pagãos), era antes poesia; e temos a vida interior do cristão, que é a sua iniciação, porque nas religiões cristãs a iniciação é considerada como dada por Cristo, só, misticamente, e não por qualquer sacerdote ou hierofante ritualmente ou ceremonialmente. Por outras palavras — cujo sentido mais exacto será compreendido mais tarde — a iniciação pagã encaminhou-se para a Magia, como fazem todas as iniciações rituais, e a iniciação cristã encaminhou-se para o Misticismo, como fazem todas as iniciações meditativas.
Qualquer que seja o número de graus, exteriores ou interiores, na escala de ascensão para a verdade, eles podem ser considerados como três — Neófito, Adepto e Mestre. Na realidade, os graus são dez — quatro para o Neófito, três para o Adepto e três, por assim dizer, para o Mestre. Há realmente também dois intergraus que ficam entre o primeiro e o segundo, e entre o segundo e o terceiro há ordens, estas também não numeradas. Os graus não numerados são graus de noviciado, enquanto os outros são, cada um na sua medida, graus de realização.
O Neófito, ao longo dos graus que esta expressão descreve, é essencialmente um aprendiz; o seu caminho é em direcção à realização do conhecimento na esfera exterior. No Adepto, ao longo dos seus três passos, há um progresso na unificação do conhecimento com a vida. No Mestre há, ou diz-se que há, uma distribuição da unidade assim atingida em virtude de uma unidade mais elevada.
Uma comparação com coisas mais simples tornará isto mais claro, creio. Suponhamos que o escrever grande poesia é o fim da iniciação. O grau de Neófito será a aquisição dos elementos culturais com que o poeta terá de tratar ao escrever poesia e que são, grau a grau e no que se afigura ser uma analogia exacta: 0) gramática, 1) cultura geral, 2) cultura literária particular, 3) [incompleto no original, e a numeração salta] O grau de Adepto será, extraindo a analogia da mesma maneira 5) o escrever poesia lírica simples como num poema lírico comum, 6) o escrever poesia lírica complexa como em, 7) o escrever poesia lírica ordenada ou filosófica como na ode.
O grau de Mestre será, da mesma maneira: 8) o escrever poesia épica, 9) o escrever poesia dramática, 10) a fusão de toda a poesia, lírica, épica e dramática em algo para lá de todas elas.
Ao leitor desta analogia literária ocorrerão três observações. A primeira é que se pode ser poeta sem os graus de Neófito, Adepto do primeiro grau de Adepto sem sequer se «tomar» o primeiro grau de neófito. A segunda é que a progressão descrita não corresponde à que habitualmente acontece na vida, seja ela a de um poeta ou a de qualquer outro homem. A terceira é que a função de toda a poesia, lírica, épica e dramática, em algo que fica para além das três, é uma realização que excede a compreensão.
Levei o leitor a fazer estas observações para que eu pudesse, replicando-lhes, completar a analogia com uma explicação.
Quanto à primeira observação: O primeiro grau de Adepto é, na verdade, o primeiro grau real da iniciação real. Um místico simples, que funde a sua fé e a sua vida, atingiu o começo da iniciação real, enquanto o neófito aperfeiçoado, no qual a fé (ou conhecimento) e a vida ainda estão separados, não a atingiu. Mas se o Adepto espontâneo tiver atingido o Quinto Grau sem ter passado pelos cinco primeiros (que incluem o grau Zero), terá de permanecer largo tempo à entrada da Câmara do Meio, onde se pode adequadamente dizer estar «colocado» o primeiro grau de Adepto. Para passar ao Sexto Grau ele terá, em certo sentido, de voltar ao princípio.
s.d.
Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio. Fernando Pessoa. (Introdução e organização de Yvette K. Centeno.) Lisboa: Presença, 1985.
“Ensaio sobre a Iniciação.” Trad.: Maria Helena Rodrigues de Carvalho

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O Mestre e eu.




Tudo terminava como tinha começado. Motivado pelo “querer saber”, acabei por entender que aquilo que todos procuramos e pensamos estar algures pelos confins do mundo, afinal, sempre esteve bem perto de nós, tão perto que mais, seria impossível…

O caminho tinha sido longo, as cicatrizes que transportava eram profundas, bem marcadas, mas estavam totalmente curadas. Ninguém faz uma viagem destas sem se magoar, sem ter que recuperar. Os erros fazem parte da jornada, são eles que nos direcionam no caminho certo e para isso temos que arriscar. Sem arriscar não há erros, mas sem arriscar não há caminho, não há nada, apenas o medo, a dúvida e o apego à nossa zona de conforto, ao conhecido.
Tinha partido para esta viagem, frágil, acompanhado apenas pelos fantasmas de toda uma vida - o medo, a dúvida e o apego ao meu mundo. Nada mais levava comigo. Movido apenas por uma breve e ténue VOZ que por vezes me chamava para a necessidade de lutar contra estes fantasmas.
Mas que voz era esta e porque me incomodava constantemente?! Porque lhe dava importância?! Porque não seguia a minha vida, como todos os outros?!
Vivia uma vida normal, como qualquer outro. Não poderia afirmar que era diferente de tantos outros. Mas não é isso a felicidade alcançável? Que mais podemos querer da vida? Podemos pedir mais?
Essa voz, quando a conseguia ouvir, dizia-me que sim. Era possível ter muito mais, era possível atingir a plenitude, ter tudo, ser absoluta e permanentemente feliz. Se isso fosse possível então eu queria atingi-lo. Mas algo me dizia que isso poderia ser algo irrealizável ou pior ainda, mesmo podendo ser alcançável, para tal, seriam pedidos grandes sacrifícios.
Estaria eu preparado para esses sacrifícios, estaria eu disponível para correr o risco de me lançar em algo que pode nem ser realizável?! Tantos medos, tantas dúvidas e apenas uma certeza – o adego ao conforto da realidade que me era familiar.
Tinha que ser diferente dos outros?! Se quase todos se mantinham no conforto aparente do seu mundo conhecido. Era assim que vivia a maioria da Humanidade, embora houvesse uma pequeníssima minoria que tivesse tido a coragem de correr o risco, os resultados alcançados por essa pequena minoria, não eram minimamente compensadores. Bastava olhar para aqueles que tinham feito essa opção.
Na sua maioria vivem uma vida de alienados, na verdade, é como se não vivessem. Certamente que o objetivo da existência, passa por vivermos e não por nos isolarmos de tudo e de todos. Mesmo que isso seja feito na tentativa de nos libertarmos dos tais fantasmas que todos transportamos, como que uma herança que recebemos com o nascimento e que se vai fortalecendo com o decurso da nossa vida.
 Mesmo não sabendo se aquela voz que me instigava era confiável, mesmo sabendo do insucesso dos que se atreveram a correr o risco, mesmo assim, não podia condenar-me à certeza representada no aparente conforto com que até ali a minha vida tinha sido vivida. Tinha que tentar…
Iniciei o meu caminho da busca, convicto que sabia o que procurar, apenas precisava descobrir onde procurar.
Não foi diferente, este meu início, este meu erro primordial, de tantos outros que se atrevem a tentar fazer esse caminho. Todos partem para essa busca, convencidos que sabem o que procurar. Na realidade, não é errada essa ideia, pois à luz da consciência que temos na época, somos movidos pelo que acreditamos ser verdade. Mesmo que mais tarde se compreenda que aquilo que pensamos ser verdade, era afinal uma imagem destorcida e condicionada, pela forma limitada como víamos o mundo nessa época, mesmo assim, é essa realidade que nos motiva à procura que termina por nos permitir ter uma consciência mais clara, levando-nos a perceber o equivoco, mas também levando-nos para outro nível de perceção do mundo e de nós.
Isto é semelhante à imagem que a alquimia espiritual plasma no significado da pedra filosofal. Todo o aprendiz alquímico, aventura-se no estudo da alquimia com um objetivo inicial que nunca é aquele que termina por resultar no que é expresso quando o aprendiz alcança todas as etapas da alquimia. Na verdade, o aprendiz procura a alquimia, com o objetivo de conseguir produzir aquilo que é, no seu lerdo entender, a pedra filosofal.   
Na sua maioria, os que se iniciam nesta procura, poucos são os que persistem e chegam ao fim, pois em pouco tempo, quase todos, percebem que afinal o que eles procuravam não é de alcance fácil, precisando de dedicação sincera e entrega eterna. Mas mesmo aqueles que têm condições para se manter no processo de aprendizagem, necessitam de muito tempo para perceber que para além do empenho, entrega e dedicação sincera, o alcance da tal desejada pedra filosofal, reserva-lhe algo inimaginável. Na realidade aquilo que a alquimia faz de mais relevante, não é dar a fonte da vida eterna ou a capacidade de transformar vil em nobre metal, no sentido literal do termo, mas sim no sentido mais elevado do termo.
Para todo o que consegue persistir na busca alquímica, aquele que era o objetivo inicial, transforma-se e transforma o aprendiz alquímico de tal maneira que ele percebe que o verdadeiro valor está naquilo em que ele se transformou e não no que ele aprendeu a transformar. Assim, mesmo sabendo como fazer, deixa de ter valor para o alquimista, o metal precioso e a capacidade de prolongar a vida física, pois ele sabe que existe a eternidade, sabem como chegar a ela e que nela, existem padrões de valores que transcendem, aqueles que ele aprendeu como transformar. 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O paradoxo - Erro de escrita ou mensagem?!


Nos mais elevados ensinamentos Herméticos, alguns deles, os mais valiosos, estão ocultos, não porque não devam ser conhecidos, mas porque devem ser descobertos. Para chegar a eles, só através do merecimento genuíno. Um desses fenómenos encontra-se plasmado em algo que parece até banal e simples. O exemplo da escrita, já presenciei alguns estudantes avançados em Hermetismo, criticarem o erro da escrita de um texto, devido a erros ortográficos, mecanográficos, gramaticais e até de contexto.
Nunca até hoje vi ninguém perceber o ensinamento que se oculta por traz desses erros, certo que tal como afirma o Hermetismo - “Quem diz que sabe, não sabe e quem sabe não diz”, mas quem critica porque o texto tem erros, esse não sabe certamente.
Afinal de contas todo o erro, num texto, tem uma mensagem velada e só os verdadeiros iniciados ou quanto se atingiu tal plano de consciência, se percebe o que ai está contido. O Iniciado conhecedor, sabe que o erro no texto tem dois tipos de significado, o direto e o indireto. O primeiro relacionado com o contexto do tema em si e o segundo relacionado com os Mistérios Maiores.
O paradoxo que gera o erro no texto é de enorme sabedoria, pois afasta os busca-dores (as) inautênticos e aproxima os verdadeiros. Entender este princípio paradoxal, abre várias portas do SABER ARCANO.

O Iniciado, o menino e o peixinho vermelho.



Quanto mais observava a humanidade, mais angustiado se sentia.
A humanidade procura sempre provas fáceis para tudo, como diz o ditado popular – “Ver para crer”. Mas a vida é um jogo de paradoxos, mesmo sem percebermos, vivemos rodeados por eles e em função deles, sem nunca os compreender.
Certo dia, logo pela manhã, ao acordar e dirigindo-se à cozinha, foi surpreendido com o fato, de um dos dois peixinhos de aquário, colocado no parapeito da janela estar morto, do lado de fora do aquário. Percebia-se que tinha saltado de dentro do aquário, provavelmente horas antes, pois o local onde estava e o próprio, estavam já completamente secos. Estando em pleno inverno, devido às baixas temperaturas, seriam necessárias horas para que a água resultante desse salto, se tivesse evaporado. Por isso, todos, ao chegar à cozinha, com a intenção de fazer a sua primeira refeição, vendo tal cenário, concluíam que tal evento teria ocorrido, algumas horas antes.
Tinha sido deixado ai, para que o membro mais pequeno da família, motivo pelo qual o aquário e os dois peixes ali se encontravam, visse e percebesse que tinha havido um acidente. O peixinho estava há poucos dias lá em casa, provavelmente sem querer, saltou do aquário e desse salto, resultou a sua morte. Mas seria importante que fosse o menino a constatar, pois certamente assim ele entenderia melhor o seu desaparecimento.
Quando todos tinham abandonado a cozinha e se preparavam para explicar o acontecido ao menino que se encontrava no quarto. Tendo ficando a sós na cozinha com o peixinho, o pai do menino, olhou para ele, ali sem vida, completamente seco, prostrado, ao lado do seu breve lar e sem pensar, deu-lhe um suave toque com os dedos, deixando-o ficar entre os seus dedos polegar e indicador. Com o toque, de imediato, como que se esse toque levasse o sopro de vida, o peixinho mexeu-se. Sem qualquer espanto, ele pegou-lhe com esses mesmos dedos e colocou-o dentro da água, no aquário. Logo percebeu que o peixinho tinha voltado à vida.
Quando todos os restantes entraram na cozinha para mostrar ao menino o seu peixinho morto, já este se encontrava, de novo vivo e em movimento, dentro do aquário. Pensativo, o pai do menino, quando questionado por todos, sobre o que tinha ocorrido, apenas afirmou – “Talvez se safe, desta vez.”
O peixinho vermelho, não se encontrava com a vitalidade do seu companheiro de aquário, nem com a vitalidade que lhe era comum, mas dava para perceber que tinha voltado à vida e provavelmente viveria. Mas como?! Questionavam-se em casa, todos os adultos. Não apenas o pai sabia e por isso nada questionava, também o seu pequeno filhote, sem fazer qualquer comentário, demonstrava que a sabedoria está para além da curiosidade do ego que quer saber só para saciar-se, pela simples satisfação desse ego. Ambos sabiam que era tal natural como o contrário, pois se viver e morrer é natural, também natural pode ser morrer e viver?! Por que não?! Só aqueles que percebem e os que querem perceber pelo ato genuíno de perceber, sem o interesse do ego, não questionam, apenas sentem e desse sentimento, resulta o pleno entendimento. Por isso o menino não levantou qualquer questão, mas os adultos sim, esses reagiram, como qualquer adulto, típico da ação do ser adulto, já completamente envolto no seu ego. Uns pela expressão contida no sarcasmo – “Foi milagre.”, outros pela negação do entendimento imposta pelo fenómeno da racionalidade – “O peixinho ainda estava vivo, só pode!”.
Os únicos que não questionavam, era o menino e o seu pai. O primeiro, porque sentia, por isso percebia com o coração e assim sendo, nada era estranho para ele. O segundo, não só sabia porque sentia com o coração, como sabia porque tinha plena consciência do fenómeno.
Desse saber, desse fenómeno, a única importância estava em perceber que nada do que tinha ocorrido, transgredia duas das condições que sob qualquer pretexto ou motivo, podem ser transgredidas – As LEIS de DEUS e as leis da natureza. A primeira representada no livre-arbítrio e a segunda nas condições da deterioração fisiológica dos tecidos que a pós-morte provoca. Desde que nenhuma desta tivesse sido quebrada, tudo estava bem, tudo era normal. Não importava se o peixinho tinha estado fisiologicamente morto, apenas importava saber que o seu livre-arbítrio não tinha sido contrariado e que a lei da natureza não tinha ainda exercido os efeitos que tornariam impraticável o seu retorno à vida, sem contrariar a lei da natureza.
Já para o ser humano comum, envolto na egocentricidade e na ignorância a que ele remete, o que importa é perceber se há milagre. Todos sonham em ter a prova contundente, vista com os próprios olhos, se existem ou não existem milagres, mas quando colocado à sua frente tal ocorrência, é tal a sua cegueira que não só não vêm o que sempre procuraram ver, como não vêm o que de verdade teriam que ver – perceber a verdade que está pro traz de tal acontecimento e daí tirar os devido ensinamentos.
Por isso todo o Iniciado, consciente do atual estado em que a humanidade se encontra, pensa e sente – “Quanto mais observo a humanidade, mais angustiado me sinto.”  

domingo, 16 de dezembro de 2012

O Inimigo publico numero um.


[ “A nossa vida acontece em função das nossas decisões, certamente que sim, mas as cicatrizes que transportamos, são fruto das decisões que permitimos e deixamos nas mãos de outros.” AC ]


Há tantos nomes para Deus como crenças acerca do que Ele é, ou se pretenderem, existem tantos nomes para Deus como perceções temos Dele. Quase todos afirmam que o seu deus é o único e verdadeiro. Assim sendo os não crentes riem-se, pois destas crenças, gera-se a situação caricata de quem vê de fora a questão, afirmar – “?Organizem-se. Mas então, quem tem razão? Se o deus de cada um é diferente dos outros e todos afirmam ser o seu o verdadeiro, quem tem razão? ”.
Na verdade todos têm razão e nenhum tem a verdade absoluta. Todos os deuses da humanidade existiram de uma forma ou de outra. Na pior das possibilidades, existiram enquanto Egrégoras – entidades mentais resultante da fé e do culto pelos seus crentes. Se acreditarmos no conceito de Universo Mental e dai, se aceitarmos que a vida no próximo nível da existência é gerada em função do que a nossa mente crê ser realidade, então na verdade, quando morrermos, certamente se acreditarmos num determinado deus, num céu, anjos, etc., viveremos essa realidade. Isso se na nossa consciência e perante o autojulgamento feito, merecermos o direito de viver junto dele.
Mas então cada um ou cada grupo, viverá a presença do seu deus. Um deus não Creador, mas sim criado pelos seus fieis. Paradoxal?! Já nesse plano próximo, mesmo estando junto do nosso deus, o deus da nossa fé, da nossa crença, não estaremos sequer próximos do Creador. Aquele que originou este e os planos seguintes que temos como existência é sem margem para duvidas o seu Creador, todo o iniciado conhecedor da verdadeira Tradição sabe isso. Mas é ele o verdadeiro DEUS? É a sua presença a derradeira e o mais elevado estado de consciência? Os cavaleiros Templário afirmavam que não, através dos seus comportamento podemos constatar isso, através das mensagens veladas, protegidas como símbolos só entendíveis para os Iniciados, eles colocavam junto com figuras santas, anjos, etc., do cristianismo, imagens pagãs, desconhecidas da crença cristã, mas simbolicamente, afirmava o seu conhecimento sobre o conteúdo da Arca da Aliança e do propósito da  Creação.
 Muitos aceitam sem questionar o porquê de tantos deuses e todos eles diferentes. Outros questionam todos os outros, aceitando apenas aqueles que lhe afirmaram ser o verdadeiro, sem que haja uma razão para crer nele, a não ser a tal fé. Muitos outros questionam tudo e todos, sem querer abrir a sua mente à racionalidade e dai, tentar perceber o porquê de todos os seres humanos terem deuses diferentes e destes, se algum merece alguma credibilidade.
Aos deuses das civilizações do passado, afirmamos que os seus crentes, foram levados pela ignorância a criar as crenças que permitiram a existência de todos eles. A questão que podemos levantar, então é relativamente ao fato de, na atualidade, estarmos livres dessa ignorância, pois se no passado, foi ela a responsável por acreditarmos em várias conceções erradas de Deus, porque será alguma da atual conceção de Deus, a correta?! Para ser uma delas a correta, terá que estar, por traz da sua conceção ou entendimento, a plena cientificação e um profundo estado de consciência. Para alem do fato de se uma está correta, todas as outras estarão erradas, certo?! 
Quem estuda profundamente este tema, reconhece a incapacidade da mente finita entender e consciencializar algo que é transcendente e infinito, assim sendo, podemos usar o pensamento Hermético que diz – “Como pode o finito ter dentro de si o entendimento do infinito, como pode o infinito estar contido no finito?”. Então se pretendermos aproximar-nos do que é o entendimento sobre o que representa Deus, deveremos apenas começar por aceitar que nunca, enquanto seres finitos, teremos a mínima condição para o entender em plenitude. Poderemos sim, à medida que a nossa consciência se torne mais clara, neste e em outros planos da existência, ir tendo uma imagem mais clara Dele, mas nunca a verdadeira imagem.
Nunca um espelho poderá refletir a totalidade da existência, como nunca uma ínfima parte da Creação poderá representar a capacidade de entender na sua totalidade essa Creação, quanto mais o próprio Creador. Somos essa ínfima parte que procura criar constantemente conceitos à imagem da sua limitada capacidade para os perceber, quando na verdade, deveríamos perceber que dessa nossa limitação, nascem todas as distorções e só aceitando tal fato, nos poderemos harmonizar com a existência. Mas teimamos em nos julgar o centro do Universo, julgamos ser a Humanidade o motivo da Creação, levando ao sentimento ridículo que o DEUS vive em função da nossa existência, quando na verdade é exatamente ao contrário. 
Como podemos querer entender o verdadeiro DEUS, se nem conseguimos conhecer-nos a nós mesmos, ao mundo em que vivemos, a todos os que junto de nós vivem e até aos outros planos da existência? Como podemos querer entender algo que está tão longe de tudo isto, quando nem percebemos algo tão básico, quando comparado com a transcendência que é DEUS - a nossa própria mente? Ridícula a presunção humana. Quando qualquer homem da ciência afirma perentoriamente que o mundo espiritual não existe. Ridícula a presunção humana quando um homem da fé afirma que sabe o que existe para alem deste plano da existência, sem sequer ter condição para ter realizado esse conhecimento, resguardada a sua afirmação, na incapacidade de constatação geral da humanidade.
Esquecemos que um dia, todos enfrentaremos o derradeiro momento. Crente e não crente. Existindo ou não existindo o mundo espiritual, uma coisa é certa, o derradeiro momento é uma verdade inquestionável, pois após o ato inicial do ciclo que é a vida, representado pelo nascimento, só existe uma verdade que todos podemos aceitar – o fim desse ciclo, a morte física e neurológica. Nesse dia, no dia derradeiro, todo aquele que afirma não existir o mundo espiritual – comprovará a sua afirmação e todo aquele que afirma conhecer esse mundo, sem o conhecer na realidade, sentirá o mesmo que o primeiro – o medo derivado da ignorância, da negação dos primeiros ou do autoengano dos segundos.
No derradeiro momento todos, sem exceção, nos depararemos com a única e inquestionável verdade. Para isso, mesmo que não tenhamos condições para constatar essa verdade, mesmo assim, deveríamos ter a honestidade para connosco e deixar de nos enganarmos, só para demonstrar aos outros que não temos medo, ou que temos plena convicção naquilo que afirmamos serem as nossas certezas. O método mais prudente, para aqueles que nunca conseguiram de verdade, constatar se existem os planos espirituais e existindo, como serão, a melhor forma de lidar com tal realidade, não passa por a atual atitude de quase toda a humanidade, mas sim, manda a prudência que se criem várias possibilidades e mentalmente, prepara-nos para elas. 
Vamos fazer uma reflexão prática.  Imagine que cria um conjunto de possibilidades para o caso de haver existência para alem desta. Quanto mais coerentes e diversas forem essas hipóteses, mais bem preparado estará, é como alguém que se prepara para viajar para um sitio que não sabe como é ou o que lá irá encontrar. A melhor forma de se preparar num caso desses, é prever todas as possibilidades e assim aquilo que será esse clima, idioma, cultura, forma de vida em geral, andará dentro da escala que previu. Não será exatamente como as que previu, mas estará certamente mais bem preparado do que se nada tivesse feito, comportando-se como que se nunca fosse ter de fazer essa viagem. 
Agora vamos imaginar a versão dos não crentes. Se por acaso tudo terminar com o fim desde ciclo de vida e assim confirmando-se aquilo que é a versão da ciência ortodoxa quando explica que a vida é unicamente um fenómeno fisiológico e neurológico. Se assim for, porque ter medo?! Medo de quê? Se tudo terminar ali, com o ato que é a morte, não havendo existência não há sofrimento, não haverá inferno, ou céu, não haverá necessidade de autojulgamento ou de qualquer punição. Apenas deixaremos que ter função e isso significará que voltaremos a ser o que eramos antes do nascimento, na perspetiva do ato de ter consciência – nada. Bem pior do que isto, é a possibilidade que existir algo depois desta existência e ai é como ir fazer a tal viagem sem qualquer preparação.
Se não há nada depois desta existência, se tudo não é mais que um conjunto de reações fisiologias e neurológicas, então pergunto – “Lembra-se do quanto sofria antes da nascer neste plano?”  Se não e se a condição a que voltamos na versão dos não-crentes, será essa, então, não voltaremos à mesma condição anterior?! Certo! Nessa condição não havia sofrimento, pois não havia consciência de nada e assim sendo, voltaremos a ela.
Na verdade temos medo da morte, mas nunca refletimos sobre o motivo desse medo. O motivo do medo da morte, é igual para os que não acreditam haver mais nada para alem desta existência e para os que acreditam haver. Na verdade temos medo, não, de não sabermos o que ocorrerá, temos medo de perder a individualidade. O medo da morte é igual para os crentes e não crentes, pois esse medo é sobre a sensação de deixar de se sentir – EU SOU. Deixar de existir, é o medo de perder-se como ser individual e não somente o desconhecido, por si. Se não fosse assim, porque os não crentes teriam medo de morrer, se para eles, não há desconhecido?!
Perante a ignorância gerada pelo desconhecimento destes temas, podemos não querer admitir, mas a atitude dos não crentes não é muito diferente da dos crentes pela fé cega. Ambos têm em comum o medo de adentrar nestes temas ou então pela acídica em que preferem permanecer, acabam ambos, por adiar qualquer conclusão para alem da que seja a mais simples para os seus medos – crer pela fé que não questiona nada ou não crer em nada. Sempre que precisamos que resolver as nossas fobias, precisamos ir à sua origem, isso exigir, coragem, trabalho e esforço árduo. Exige possivelmente conhecer e ter como verdades, realidades que preferimos enfrentar o mais tarde possível. Mas não se iluda, pois todos teremos que as enfrentar um dia e nesse dia, teremos que o fazer solitariamente.
(...)

In: Livro – “A origem dos mistérios, verdades e mentiras. Capitulo XIII – Inimigo publico numero um.”

sábado, 8 de dezembro de 2012

AINDA É TEMPO.




Logo depois do primeiro bater de coração, o nosso corpo, ainda um feto, estará preparado para receber um novo espirito, o nosso espirito. Na verdadeira fase final de gestação, é definida já em função das características e escolhas do espirito que nele irá encarnar. Mais ou menos quando da primeira batida do coração, a consciência-espirito que nele escolhe encarnar, começa a ter pequenos flashes, lentamente ele vai-se habituando, de novo, ao condicionalismo que é estar retido num corpo físico e ao mesmo tempo, vai preparado a adequação desse corpo às características que necessitará para vivenciar o conjunto de experiencias que o levaram a encarnar.
É assim que reencarnamos, deixando lentamente esse outro mundo onde vivemos, muitos de nós, à semelhança do que acontece quando abandonam este mundo, também ao abandonar esse outro mundo, de novo nesta direção, quase não têm consciência clara do que irá ocorrer. Muitos de nós apenas seguimos instintos, sentimos impulsos, presenciamos flashes de algo que não percebemos com clareza, de algo que é na realidade a nossa vontade, o nosso QUERER SUPERIOR, mas que mesmo nesse estado em que ai vivemos, não é para muitos de nós, claro.  Não julgue que ao passar para esse estado de consciência tudo se torna claro, tudo lhe será mostrado e tudo entenderá. Essa é mais uma etapa, mais um estado e se está a ler esta reflexão é porque em algum momento, o seu QUERER, decidiu regressar a esta existência e não ascender aos verdadeiros estados de consciência, onde um dia perceberemos que vivemos verdadeiramente ai e é onde está esse nosso QUERER.
Quando encarnamos plenamente, levamos alguns anos terrestres para nos habituarmos a saber coordenar a nossa consciência-espirito, com os órgãos fisiológicos que geram a perceção da existência – sistema nervoso e principalmente aquilo que muitos entendem por cérebro, mas pretendem referir-se como sendo o complexo fenómeno que é a mente. Esta ultima, transcende e simultaneamente, une o mundo físico ao mundo espiritual. Neste primeiro período da nossa nova encarnação, o espirito vai adormecendo lentamente e transformando-se naquilo que entendemos por mente, esta por sua vez, vais sendo formatada, com códigos, conceitos, criando aquilo que podemos considerar a capa com que toda a mente viverá – o ego. Aproximadamente 5 a 7 anos depois de ter culminado o ato da gestação, através do nascimento, o espirito fica finalmente aprisionado dentro do corpo que escolheu, apenas reconhecendo o que entendemos por mente.
Este é o ato do renascer espiritual nos planos baixos da existência, este é o ato que todos olvidamos quando despertamos para mais um ciclo de encarnação. Muitos de nós, voltamos de novo, convictos que precisamos livrar-nos dos códigos, de conceitos e preconceitos (preconceitos = códigos + conceitos) que não nos permitiram, mesmo nesse outro plano onde estivemos, ter o entendimento que julgávamos possível e necessário. Estando nesse plano, aquele que muitos chamam de céu | inferno | purgatório, todos nomes que se dão, para um nível que devemos entender ser um outro estado de consciência, apenas isso, muitos julgam poder entender tudo o que aqui, neste plano físico, nem se preocupam em entender. Assim quase todos terminam por viver ai, como vivem aqui, como que nem querendo questionar, preferindo repetir, repetir, voltar, voltar vezes sem conta, sem saber quantas vezes já reiniciamos todo o processo de novo. Basta para isso, olvidar que já o fizemos e sempre que através de sonhos, sensações, flashes e outras formas de linguagem recebemos pequenas partes dessas outras experiencias, preferimos fazer o que fazemos aos sonhos – “Ah, mas que sonho estranho, ainda bem que foi apenas isso - um sonho”.
Julgamos que podemos relegar tudo para que alguém um dia resolva, ai por vezes aquilo que chamamos consciência, alerta-nos para a necessidade de cumprir o verdadeiro motivo porque viemos a este mundo e novamente nós, por acídia pura, entregamos tudo nas mãos da fé, expressa naquilo que as religiões acabaram por ter que apresentar como respostas, para apaziguar as necessidades mais profundas do nosso espirito, mas que nós teimamos em recalcar. Que culpa têm as religiões da nossa acídia? São elas responsáveis de todos nós não queremos procurar o nosso caminho, não queremos cumprir a missão para que encarnamos?! Elas apenas fazem o que nós lhes pedimos, afinal de contas, somos nós que as criamos.
Estes são pensamentos de todos deveríamos colocar-nos, exames de consciência, profundos e não exames da consciência criada pela sociedade, pelos códigos do certo e errado, pelo que aparentemente pode e não pode ser feito. Posso roubar, desde que seja subtil na forma como roubo. Posso fazer tudo o que possa prejudicar outros, desde que o faça ao abrigo dos códigos da sociedade, das leis do homem, dos preceitos das religiões oficializadas. Somos julgados por nós mesmo e esse julgamento é feito com base nos códigos que uns e outros ao longo da existência da humanidade, vamos criando, como forma de nos governarmos. Mas o importante é não ser descoberto socialmente da quebra de alguns desses códigos, quando na realidade, todos já os quebraram, absolutamente todos.
Não julgue que tudo o que tem sido por si feito, não será por si, alvo de julgamento. Esse dia chegará para todos e ai não contam os códigos, as leis do homem e muito menos aqueles que o próprio homem inventou como sendo as leis de DEUS. Nesse dia, como já ocorreu antes, noutras vidas que você teve, enfrentará a sua própria consciência e será ela o seu juiz. Não há LEI mais justa que esta LEI de DEUS, a do autojulgamento e não há maior bondade que a bondade SUPEREMA da plenitude que ELE nos dá através do livre-arbítrio. Mas são estas duas condições, estas duas mãos que nos guiam, mas também são elas que nos castigam. Assim não se esqueça que devemos a todo o momento fazer profundos exames de consciência para nós e sobre nós mesmo.  Encare isso como um treino para o derradeiro momento.
Hoje, depois de todo o meu trajeto de vida, olho para mim, como que se num espelho me visse e pergunto-me – “Afinal quem és tu?”. Qual foi o prepósito que te trouxe? Porque fiz o que fiz, como e de que forma me deixei iludir, enredando naquilo que a vida me tornou?!... Pergunto-me como será esse dia em que me encontrei comigo mesmo, depois de ter usado do meu livre-arbítrio, olhando para o que fiz dele, questiono-me como me julgarei. Será certamente um julgamento justo, disso não duvido. Já não sei, quanto ao resultado desse julgamento, mas procuro não me deixar levar pelas aparentes armadilhas que a vida me coloca. Já errei quanto baste, já cedi aos instrumentos do ego, da duvida, do medo, dos códigos criados pela sociedade para me afastar do verdadeiro caminho, pelo qual decidi vir a este plano.
Mesmo não sabendo qual o meu caminho, sei que ele não se fará cumprindo aquilo que a sociedade encara como o correto, o que deve ser feito. Esse pode ser mais um caminho ardiloso, como muitos outros que tenho seguido, pois todos eles são montados com base no certo e errado que aprendi quando me enredei nos truques que me trouxeram distraído até aqui. Como pode ser certo, só porque, mesmo agindo de forma que prejudique muitos outros, mas dentro da lei do homem e ser errado, a humilde tentativa que deu errado, mas cometida pela entrega plena, na tentativa do beneficio comum?!! Não quero este tipo de códigos que me julgam pelo que foi o resultado, na perspetiva dos seus interesses, mas que nunca olham para o genuíno motivo que me levou a iniciar tal ação.  No meu dia de julgamento, quando em plena consciência me tiver que condenar, preferido que essa condenação seja porque não resistir a assimilar alguns desses códigos sociais perfeitamente aberrantes e isso me ter feito perder tempo e envolver-me ainda mais. Mas ainda é tempo, ainda posso recuperar o suficiente para fazer o que tenho por fazer.
Olho para a minha vida e penso – “…errei quando disse a um amigo que não o podia ajudar financeiramente e na verdade não podia mesmo, ou errou ele quando se aproximou de mim, alegando amizade?!!” “…errei quando me divorciei que alguém que ainda muito jovem, por capricho, decidiu engravidar e só após 6 meses informar?!!” “..errei quando por várias vezes me envolvi na criação de empresas e durante pouco ou muito tempo, essas empresas asseguraram postos de trabalho, mas como tudo na vida tendo um ciclo. Começa e termina?!!” “…errei quando o meu próprio filho, depois de se tornar adulto, olhando para mim, com esses códigos da sociedade, me julgou por algo que não sou?!!”, “…errei quando confiando num amigo de juventude e mais tarde advogado, depositando nas suas mãos, dinheiro que ele deveria usar para efetuar pagamentos de uma empresa que ai se extinguia, o usou em proveito próprio e mais tarde num ato de pleno abuso imoral, aproveitou-se do desmantelamento do património advindo para lucrar e fazer lucrar outros??!!!” “…errei quando tentei criar projetos para gerar postos de trabalho, quando muitos, imensos, se aproximaram, ofuscados pela vil intenção, alegando apenas empenho e malogrado o arranque desses projetos, todos mostram as intenções que os levavam a tal proximidade??!!”.
Como posso estar errado eu??!! Essa é a questão que me importa conhecer, pois não procuro vinganças, já o fiz, mas não faço mais, já me levaram por esse caminho, mas já não me levam mais. Procuro encontrar-me, procuro ter a certeza das justeza com que vivo esta vida. Embora saiba que esta mesma vida, até chegar aqui, teve que me mostrar os caminhos errados. Mas esses caminhos errados, estão longe do entendimento que muitos julgam ser certo ou errado. Pobres, tristes dos que vivem nesse engano, como um dia eu também vivi, convicto que sabia o que fazia, do que era certo e errado, preocupado com o julgamento que os outros fariam, sem sequer perceber que o único julgamento que importa, terá lugar num único momento e nesse momento irei estar só, serei só eu. Por isso hoje faço-me essa pergunta – Estarei errado, por ser tão genuíno, por tentar ser o que seria se não tivesse preso ao que outros possam pensar, ao que a sociedade possa julgar de mim?!!!
Hoje olho para a vida que vivi, olho para o caminho que fiz e pergunto-me o que ainda preciso fazer,  antes de terminar este meu momento de existência que chamamos vida. Em vários momentos do meu dia a dia, imagino o meu momento derradeiro. Enquanto muitos fazem tudo por não pensar nele, hoje eu faço dessa reflexão o modo natural de me preparar para algo que só eu posso fazer. Imagino-o porque devo manter uma constante critica e nível profundo de autojulgamento que me mantenha alinhado com aquilo que pode ser um caminho que aparentemente errado, nos códigos sociais, é na verdade um dos verdadeiros caminhos que me podem levar um dia a sair da encruzilhada que se chama reencarnação.
Hoje quase me consigo lembrar dos momentos, em que estando noutro plano, resolvi encarnar e dessa encarnação, cumprir um objetivo. Mas tenho momentos em que percebo em plenitude o que me trouxe aqui, momentos de lucidez plena que depois se ofuscam pelas regras a que todos estamos sujeitos – códigos, conceitos e a importância que atribuímos ao julgamento dos outros. Ardis do próprio ego que nos limita a todos e nos remete a todos, a uma única condição, condenados a viver em ciclos, de reencarnação em reencarnação, enredados no que não importa, envoltos pelo aparente conforto ilusório a que estes planos nos obrigam. Somos seres Omnipotentes, a viver estados de incapacidade.
Quantas vidas eu vou QUERER voltar a viver até me dar conta?!! E você, quantas vidas já viveu?! Quantas vidas vai QUERER viver mais, sem que o despertar aconteça?!! Ainda é tempo, ainda pode valer a pena, basta que faça o primeiro gesto nesse sentido, basta que perca o medo, basta que questione, mas logo depois, abandone a duvida que quando não abandonada, paralisa o QUERER. Ainda é tempo de eu cumprir os desígnios que me mandaram aqui, ainda é tempo para mim e para si….AINDA É TEMPO.